Danielle Farias (*)
Reinaldo Araujo (**)
O Censo 2022 trouxe pela primeira vez dados oficiais sobre o autismo no Brasil: são 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), representando 1,2% da população, com maior prevalência entre crianças de 5 a 9 anos (até 2,6%) e entre o sexo masculino. Apesar do avanço da visibilidade, o país ainda carece de políticas públicas efetivas, ambientes adaptados e acesso ao diagnóstico, especialmente fora dos grandes centros urbanos.
Apesar dos avanços no tratamento de autistas, ninguém imagina que o autismo já foi tratado como doença no passado, especialmente nas décadas iniciais de sua identificação. No entanto, a compreensão atual e a classificação do autismo evoluíram, e ele é reconhecido como um Transtorno do Espectro Autista (TEA), uma condição do neurodesenvolvimento, não uma doença.

Evolução da compreensão do autismo:
Neste sentido o autismo era frequentemente confundido com outras condições, , outras “doenças” clássicas, como esquizofrenia, e consequentemente, tratado como uma doença mental. Os avanços que temos agora são frutos de muita luta.

Em meados dos anos 70, o psiquiatra inglês Michael Rutter diferenciou o autismo da esquizofrenia, reconhecendo-o como um transtorno mental distinto.
Passando mais uma década (1980), o autismo foi incluído no Manual de Diagnóstico e Estatística de Transtornos Mentais (DSM), sendo classificado como um transtorno de desenvolvimento.
Em 2010, com a Lei nº 12.764/2012, conhecida como “Lei Bereni e Piana”, foi instituída a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista e o reconheceu como deficiência, não como doença. Mesmo assim, existem muitas confusões e intolerância de uma parcela da sociedade, que insiste em não espeitar os direitos da pessoa com autismo.

Desta forma, em Tailândia, do interior paraense, uma cidade com pouco mais de 70 mil habitantes (IBGE, 2022), nasceu o Instituto Acreditar Maria de Lurdes, um projeto que se tornou uma verdadeira resposta a essa realidade. Com quase cinco anos de existência, o Instituto acolhe mais de 600 pessoas, sendo cerca de 200 com diagnóstico de TEA.
O mais importante: atende também àqueles que ainda não têm laudo, mas que apresentam dificuldades comportamentais e são frequentemente rotulados, sem o devido acolhimento, que pode provocar crises no neurodesenvolvimento deste indivíduo. No Instituto, essas famílias encontram orientação e apoio, espaço propício à inclusão, onde o autista não é tratado como doente.

A solução à saúde mental de autistas está no ambiente criado, reproduzido pelo Instituto: um espaço onde a socialização que acontece com respeito, afeto e planejamento. Por meio de atividades como teatro, informática, musicalização e treino de habilidades sociais, crianças e adolescentes têm a oportunidade de desenvolver comunicação, autoconfiança, autocontrole e pertencimento. As famílias atípicas, por sua vez, recebem orientação constante sobre como lidar com os comportamentos dos filhos, melhorando a convivência em casa e garantindo mais saúde mental para todos.
Histórias que mostram a diferença
Alguns depoimentos confirmam o trabalho de preservação da saúde mental das famílias atípicas e seus filhos autistas ou não, leia
• RIAN, chegou ao Instituto sem falar e com crises sensoriais severas — vomitava ao entrar em ambientes sociais. Através da dessensibilização, da computação, do teatro e do treino de habilidades sociais, hoje ele se comunica, se apresenta e participa com segurança.
• ANA CLARA, tinha dificuldades com regras e não conseguia participar de atividades em grupo. Aos poucos, foi ganhando autonomia nas aulas de musicalização, teatro e computação, e hoje interage com leveza e segurança.
• ISAAC, enfrentava grandes dificuldades para seguir instruções. Ao encontrar nas aulas de informática um ponto de interesse, desenvolveu foco, disciplina e passou a manter-se concentrado por longos períodos.
• BRUNA, é exemplo de expressividade conquistada. Participou de todos os eventos do Instituto, desenvolvendo autoestima, linguagem corporal e expressão verbal.
• LETÍCIA, evoluiu notoriamente em sua autoestima e comunicação, a partir do convívio com outras crianças e do ambiente seguro que encontrou no Instituto.
• DANILO, tinha sérias dificuldades de expressão e personalização nas interações com os colegas. Com aulas de teatro, treino de habilidades sociais e orientação contínua, passou a compreender melhor suas emoções e se relacionar com empatia.
Essas histórias não são exceções, mas reflexos de um modelo que funciona. O Instituto Acreditar mostra que o acesso à socialização adaptada, à arte e ao afeto pode transformar vidas. Ao criar um ambiente seguro, criativo e respeitoso, a instituição não apenas promove o desenvolvimento das crianças, mas fortalece toda a estrutura familiar e à saúde mental de crianças e adolescentes. É o exemplo claro de que a inclusão verdadeira começa com oportunidades reais e sustentadas.
O autismo é considerado um espectro, com diferentes manifestações e graus de severidade, e é classificado como um transtorno do neurodesenvolvimento que acompanha a pessoa ao longo da vida.
Diferença entre doença e transtorno:
Doença:
É geralmente definida como uma condição patológica com causa conhecida e reversível, podendo ser tratada com medicamentos e/ou outras terapias com o objetivo de cura.
Transtorno:
Refere-se a um padrão de sintomas que causam sofrimento ou prejuízo funcional, com causas complexas e multifatoriais, que pode ser gerenciado, mas não necessariamente curado.
O autismo não tem cura, mas intervenções adequadas podem promover autonomia, bem-estar e qualidade de vida para as pessoas com espectro. O tratamento do autismo envolve abordagens multidisciplinares, como terapias comportamentais, fonoaudiologia, terapia ocupacional e, em alguns casos, acompanhamento medicamentoso para sintomas específicos.
A conscientização sobre o autismo e a neurodiversidade é fundamental para combater preconceitos e promover à saúde mental e à inclusão social das pessoas autistas, que não são doentes.
